Custo por km rodado: como calcular certo na sua frota

Combustível dividido por km não é custo por km. Veja a conta completa, com fixos, variáveis e depreciação, e os 5 erros que distorcem o número.

Equipe Cofauto 10 min de leitura
Capa do artigo do Cofauto sobre custo por km rodado, com o título 'Custo por km rodado: a conta certa' em fundo roxo da marca

Pergunte a um gestor de frota quanto custa rodar um quilômetro e a resposta costuma sair rápido demais: pega o gasto de combustível do mês, divide pela quilometragem e pronto. O número é redondo, cabe em qualquer relatório e é errado.

Errado porque combustível quase nunca é metade do que um veículo consome. Falta pneu, óleo, peça de desgaste, seguro, IPVA, licenciamento. E falta a maior das despesas invisíveis: a depreciação, que não chega por boleto nenhum, mas sai do patrimônio da empresa todo mês. Quem orça um serviço, define reembolso de quilometragem ou decide entre comprar e alugar usando o número incompleto está decidindo com metade da informação.

Vale olhar como o regulador faz. Em 17 de julho de 2026, a ANTT aprovou a atualização dos coeficientes dos pisos mínimos de frete do transporte rodoviário remunerado de cargas. A revisão manteve a metodologia da Resolução ANTT nº 5.867/2020 e mexeu justamente nos dois parâmetros que envelhecem mais rápido: incorporou a variação acumulada de 3,54% do IPCA entre dezembro de 2025 e maio de 2026 e atualizou o preço de referência do óleo diesel S10 para R$ 6,97. Ou seja: a conta pública é revisada de tempos em tempos. A conta da maioria das frotas não é revisada nunca.

Este guia mostra a estrutura completa do custo por km, o passo a passo para calcular com o que você já tem em mãos, um exemplo com números e os erros que fazem o resultado mentir.

O que é custo por km rodado (e o que não é)

Custo por km rodado é todo o dinheiro que um veículo consome em um período dividido pelos quilômetros que ele rodou nesse mesmo período. Todo o dinheiro, não só o que passou pela bomba. E quilômetros medidos, não estimados.

As duas armadilhas estão nessa frase: entrar só com combustível e usar quilometragem de rota planejada em vez do hodômetro. Um erro de 10% na distância vira um erro de 10% no custo por km — e na direção mais perigosa, porque o número sai menor do que é.

Repare que a própria ANTT separa a conta em duas partes. O piso mínimo de frete é formado por um coeficiente por quilômetro rodado, que cobre o que varia com a distância, e um valor fixo por operação, de carga e descarga. É a mesma lógica que a sua planilha precisa ter: o que depende do quilômetro e o que existe independentemente dele.

Custo fixo e custo variável: separe antes de dividir

Custo fixo é o que a empresa paga mesmo com o veículo parado na garagem: IPVA, licenciamento, seguro obrigatório e seguro contratado, rastreador, garagem, parcela de financiamento ou leasing. Custo variável só acontece quando a roda gira: combustível, pneu, óleo, filtro, pastilha de freio, pedágio, lavagem.

A depreciação fica nos dois lados. Parte dela é tempo — o veículo vale menos em dezembro do que em janeiro mesmo parado no pátio. Parte é uso — quilometragem alta derruba o valor de revenda. Para o dia a dia, tratá-la como custo do período já resolve.

Por que essa separação importa: custo fixo dividido por quilômetro cai quando o veículo roda mais, e custo variável não. É exatamente por isso que veículo ocioso é caro. Ele continua consumindo a parte fixa sem gerar quilômetro para diluí-la. Se você joga tudo em um balde só, essa informação desaparece do relatório.

Tabela do Cofauto separando custos de frota em variáveis (combustível, pneus, óleo e filtros, peças de desgaste, pedágio e lavagem) e fixos (IPVA e licenciamento, seguro e rastreador, financiamento ou leasing), com a depreciação classificada como fixa e variável
Antes de dividir por quilômetro, classifique cada despesa. É a separação que revela o custo do veículo parado.

Passo a passo para calcular o custo por km da sua frota

  1. Escolha o período e feche-o. Doze meses é o ideal, porque o ano inteiro pega IPVA, seguro, revisões maiores e a sazonalidade do combustível. Se a frota é nova, use 3 ou 6 meses e assuma que o número ainda vai se mover. O que não pode é misturar períodos diferentes entre veículos.
  2. Levante a quilometragem real, veículo por veículo. Hodômetro do primeiro e do último dia do período. Rota planejada e estimativa de motorista não servem: o divisor é a parte que ninguém confere e é justamente onde o número se perde.
  3. Some os custos variáveis. Combustível pela soma dos abastecimentos daquele veículo, não pela média da frota; pneus; óleo e filtros; peças de desgaste; pedágio; lavagem. Se você não tem abastecimento lançado por placa, esse é o primeiro buraco a tapar: sem isso não existe custo por veículo, só média disfarçada.
  4. Some os custos fixos. IPVA, licenciamento, seguro obrigatório e seguro contratado, rastreamento, garagem ou estacionamento, parcela de financiamento ou leasing. Se há uma pessoa dedicada à frota, rateie o salário dela pelos veículos.
  5. Calcule a depreciação. Valor de aquisição menos valor de venda esperado, dividido pelo número de anos até a troca — o método linear resolve para orçamento. Como referência de ordem de grandeza, a Receita Federal admite taxa anual de 20% para veículos, com vida útil de 5 anos (Anexo III da IN RFB nº 1.700/2017). É parâmetro fiscal, não valor de mercado, mas ajuda a perceber se a sua estimativa está fora da realidade.
  6. Divida. (Variáveis + Fixos + Depreciação) ÷ km do período. Faça por veículo primeiro; a média da frota é consequência, não o objetivo.
  7. Compare veículos iguais entre si. Dois utilitários do mesmo modelo e ano com custos por km muito diferentes estão contando alguma coisa: rota, perfil de condução, manutenção atrasada, abastecimento fora do padrão. É aqui que a conta deixa de ser relatório e vira decisão.

Um exemplo com números para conferir a lógica

Os valores abaixo são ilustrativos e existem só para mostrar a estrutura — troque cada linha pelos seus. Utilitário leve, 12 meses fechados, 30.000 km rodados no período, comprado por R$ 90.000,00 e avaliado em R$ 66.000,00 no fim do ano.

Item12 mesesPor km
CombustívelR$ 21.000,00R$ 0,70
Manutenção e pneusR$ 6.000,00R$ 0,20
IPVA, licenciamento e seguroR$ 5.400,00R$ 0,18
Depreciação no períodoR$ 24.000,00R$ 0,80
TotalR$ 56.400,00R$ 1,88

Repare no que o exemplo mostra. O combustível é R$ 0,70 por km — pouco mais de um terço do total. Quem calcula só a bomba acredita que roda a R$ 0,70 e orça, cobra ou reembolsa em cima disso. Os R$ 1,18 restantes acontecem de qualquer jeito; eles só não estão no relatório.

E tem um segundo efeito, menos óbvio. Se esse mesmo veículo rodar 15.000 km em vez de 30.000, o custo por km não cai pela metade: ele sobe. Os R$ 5.400,00 de custos fixos e a maior parte da depreciação continuam existindo, agora divididos por metade dos quilômetros. Frota subutilizada não economiza — ela encarece cada quilômetro que roda.

Cinco erros que fazem o número mentir

  • Deixar a depreciação de fora. Em veículo novo, costuma ser a maior linha da conta. E é a única que não chega por boleto, o que a torna fácil de esquecer e cara de ignorar.
  • Usar quilometragem estimada. Hodômetro no início e no fim do período. Qualquer outra coisa é chute, e chute no divisor contamina o resultado inteiro.
  • Misturar veículos diferentes na mesma média. Uma média que junta caminhão, utilitário e carro de passeio não descreve nenhum dos três e não permite decisão sobre nenhum deles.
  • Ignorar o custo do veículo parado. Veículo sem uso não tem custo variável, mas continua com custo fixo e depreciação. Se ele não entra na conta, a frota parece mais eficiente do que é.
  • Calcular uma vez e nunca mais. Combustível, peça, seguro e valor de revenda mudam. A ANTT revisa os coeficientes dela periodicamente; sua planilha merece pelo menos uma revisão por ano.
Infográfico do Cofauto listando os cinco erros que distorcem o custo por km: esquecer a depreciação, usar quilometragem estimada, misturar veículos diferentes na mesma média, ignorar o custo do veículo parado e calcular uma vez e nunca mais revisar
Os cinco erros aparecem juntos com frequência — e todos empurram o custo por km para baixo.

Checklist: o que você precisa ter para o número ser confiável

  • Hodômetro registrado em toda saída e devolução do veículo
  • Abastecimento lançado por placa, com litros, valor pago e km do momento
  • Manutenções e trocas de pneu registradas com veículo, data, km e valor
  • IPVA, licenciamento e seguro anotados por placa, com data de vencimento
  • Valor de aquisição e data de compra de cada veículo
  • Valor de mercado atualizado pelo menos uma vez por ano
  • Um responsável nomeado e uma data no calendário para refazer a conta

Se quiser só o resultado sem montar planilha, o Cofauto mantém uma calculadora de custo por km gratuita, que já pede os campos na ordem deste guia.

Perguntas frequentes

Qual é a fórmula do custo por km rodado?

Custo por km = (custos variáveis + custos fixos + depreciação do período) ÷ quilômetros rodados no mesmo período. Os três blocos precisam se referir exatamente ao mesmo intervalo de tempo e ao mesmo veículo. Se o período for de 12 meses, a depreciação também tem que ser a de 12 meses, e a quilometragem tem que sair da diferença entre o hodômetro do primeiro e do último dia.

A depreciação entra mesmo no custo por km?

Entra. Ela é dinheiro que a empresa perde em razão do uso e do tempo, mesmo que nunca apareça em um boleto. Deixá-la de fora faz o veículo próprio parecer artificialmente mais barato que a locação, que já embute a depreciação no valor da diária. Para estimar, use valor de compra menos valor de revenda esperado, dividido pelos anos até a troca. Como referência fiscal de ordem de grandeza, o Anexo III da IN RFB nº 1.700/2017 admite taxa anual de 20% para veículos, com prazo de vida útil de 5 anos.

Qual período devo usar no cálculo?

Doze meses fechados é o mais confiável, porque só o ano inteiro captura IPVA, licenciamento, seguro, revisões maiores e a variação de preço de combustível ao longo do ano. Períodos de 3 ou 6 meses servem para acompanhar tendência e para frota nova, mas tendem a subestimar o custo se caírem em um trecho do ano sem despesa anual e sem manutenção pesada.

O custo por km serve para definir o reembolso de quilometragem do funcionário que usa o carro próprio?

Serve como base técnica, e é bem melhor que reembolsar só o combustível: quem usa o próprio carro também paga pneu, manutenção, seguro e depreciação. Mas o valor e as regras do reembolso vêm de política interna, acordo ou convenção coletiva, e têm efeitos trabalhistas e tributários — calcule o número e submeta a política ao contador ou ao jurídico antes de aplicar.

Posso comparar meu custo por km com o piso mínimo de frete da ANTT?

Só com cuidado. Os coeficientes da ANTT valem para o transporte rodoviário remunerado de cargas de carga lotação e variam por tipo de carga, configuração do veículo e número de eixos carregados — não são custo médio de frota urbana nem de veículo leve. O que dá para aproveitar é o método: o piso separa o que varia com a distância do que é fixo por operação e é revisado periodicamente pelo IPCA e pelo preço de referência do diesel S10. Para quem opera nesse regime, a ANTT mantém uma calculadora oficial do piso mínimo.

Onde consulto o preço de combustível para usar no cálculo?

Use o que a sua frota efetivamente pagou, somando os abastecimentos do período. Para checar se está acima da média, a ANP publica semanalmente o levantamento de preços por município e a síntese semanal de comportamento dos preços, ambos gratuitos e com histórico.

Custo por km não é indicador de relatório: é o número que decide manter um veículo, trocá-lo, alugar, recusar um serviço ou mudar uma rota. Ele só presta se vier de dados que a operação registra sozinha, todo dia — hodômetro na saída, abastecimento na placa, manutenção com valor e quilometragem. Com isso em mãos, a conta leva quinze minutos. Sem isso, nenhuma planilha salva.

Fontes

Conteúdo informativo, atualizado em 04/08/2026. Regras de trânsito e valores mudam por estado e por resolução — confirme sempre no órgão oficial antes de decidir.

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