Custo por km rodado: como calcular certo na sua frota
Combustível dividido por km não é custo por km. Veja a conta completa, com fixos, variáveis e depreciação, e os 5 erros que distorcem o número.

Pergunte a um gestor de frota quanto custa rodar um quilômetro e a resposta costuma sair rápido demais: pega o gasto de combustível do mês, divide pela quilometragem e pronto. O número é redondo, cabe em qualquer relatório e é errado.
Errado porque combustível quase nunca é metade do que um veículo consome. Falta pneu, óleo, peça de desgaste, seguro, IPVA, licenciamento. E falta a maior das despesas invisíveis: a depreciação, que não chega por boleto nenhum, mas sai do patrimônio da empresa todo mês. Quem orça um serviço, define reembolso de quilometragem ou decide entre comprar e alugar usando o número incompleto está decidindo com metade da informação.
Vale olhar como o regulador faz. Em 17 de julho de 2026, a ANTT aprovou a atualização dos coeficientes dos pisos mínimos de frete do transporte rodoviário remunerado de cargas. A revisão manteve a metodologia da Resolução ANTT nº 5.867/2020 e mexeu justamente nos dois parâmetros que envelhecem mais rápido: incorporou a variação acumulada de 3,54% do IPCA entre dezembro de 2025 e maio de 2026 e atualizou o preço de referência do óleo diesel S10 para R$ 6,97. Ou seja: a conta pública é revisada de tempos em tempos. A conta da maioria das frotas não é revisada nunca.
Este guia mostra a estrutura completa do custo por km, o passo a passo para calcular com o que você já tem em mãos, um exemplo com números e os erros que fazem o resultado mentir.
O que é custo por km rodado (e o que não é)
Custo por km rodado é todo o dinheiro que um veículo consome em um período dividido pelos quilômetros que ele rodou nesse mesmo período. Todo o dinheiro, não só o que passou pela bomba. E quilômetros medidos, não estimados.
As duas armadilhas estão nessa frase: entrar só com combustível e usar quilometragem de rota planejada em vez do hodômetro. Um erro de 10% na distância vira um erro de 10% no custo por km — e na direção mais perigosa, porque o número sai menor do que é.
Repare que a própria ANTT separa a conta em duas partes. O piso mínimo de frete é formado por um coeficiente por quilômetro rodado, que cobre o que varia com a distância, e um valor fixo por operação, de carga e descarga. É a mesma lógica que a sua planilha precisa ter: o que depende do quilômetro e o que existe independentemente dele.
Custo fixo e custo variável: separe antes de dividir
Custo fixo é o que a empresa paga mesmo com o veículo parado na garagem: IPVA, licenciamento, seguro obrigatório e seguro contratado, rastreador, garagem, parcela de financiamento ou leasing. Custo variável só acontece quando a roda gira: combustível, pneu, óleo, filtro, pastilha de freio, pedágio, lavagem.
A depreciação fica nos dois lados. Parte dela é tempo — o veículo vale menos em dezembro do que em janeiro mesmo parado no pátio. Parte é uso — quilometragem alta derruba o valor de revenda. Para o dia a dia, tratá-la como custo do período já resolve.
Por que essa separação importa: custo fixo dividido por quilômetro cai quando o veículo roda mais, e custo variável não. É exatamente por isso que veículo ocioso é caro. Ele continua consumindo a parte fixa sem gerar quilômetro para diluí-la. Se você joga tudo em um balde só, essa informação desaparece do relatório.

Passo a passo para calcular o custo por km da sua frota
- Escolha o período e feche-o. Doze meses é o ideal, porque o ano inteiro pega IPVA, seguro, revisões maiores e a sazonalidade do combustível. Se a frota é nova, use 3 ou 6 meses e assuma que o número ainda vai se mover. O que não pode é misturar períodos diferentes entre veículos.
- Levante a quilometragem real, veículo por veículo. Hodômetro do primeiro e do último dia do período. Rota planejada e estimativa de motorista não servem: o divisor é a parte que ninguém confere e é justamente onde o número se perde.
- Some os custos variáveis. Combustível pela soma dos abastecimentos daquele veículo, não pela média da frota; pneus; óleo e filtros; peças de desgaste; pedágio; lavagem. Se você não tem abastecimento lançado por placa, esse é o primeiro buraco a tapar: sem isso não existe custo por veículo, só média disfarçada.
- Some os custos fixos. IPVA, licenciamento, seguro obrigatório e seguro contratado, rastreamento, garagem ou estacionamento, parcela de financiamento ou leasing. Se há uma pessoa dedicada à frota, rateie o salário dela pelos veículos.
- Calcule a depreciação. Valor de aquisição menos valor de venda esperado, dividido pelo número de anos até a troca — o método linear resolve para orçamento. Como referência de ordem de grandeza, a Receita Federal admite taxa anual de 20% para veículos, com vida útil de 5 anos (Anexo III da IN RFB nº 1.700/2017). É parâmetro fiscal, não valor de mercado, mas ajuda a perceber se a sua estimativa está fora da realidade.
- Divida. (Variáveis + Fixos + Depreciação) ÷ km do período. Faça por veículo primeiro; a média da frota é consequência, não o objetivo.
- Compare veículos iguais entre si. Dois utilitários do mesmo modelo e ano com custos por km muito diferentes estão contando alguma coisa: rota, perfil de condução, manutenção atrasada, abastecimento fora do padrão. É aqui que a conta deixa de ser relatório e vira decisão.
Um exemplo com números para conferir a lógica
Os valores abaixo são ilustrativos e existem só para mostrar a estrutura — troque cada linha pelos seus. Utilitário leve, 12 meses fechados, 30.000 km rodados no período, comprado por R$ 90.000,00 e avaliado em R$ 66.000,00 no fim do ano.
| Item | 12 meses | Por km |
|---|---|---|
| Combustível | R$ 21.000,00 | R$ 0,70 |
| Manutenção e pneus | R$ 6.000,00 | R$ 0,20 |
| IPVA, licenciamento e seguro | R$ 5.400,00 | R$ 0,18 |
| Depreciação no período | R$ 24.000,00 | R$ 0,80 |
| Total | R$ 56.400,00 | R$ 1,88 |
Repare no que o exemplo mostra. O combustível é R$ 0,70 por km — pouco mais de um terço do total. Quem calcula só a bomba acredita que roda a R$ 0,70 e orça, cobra ou reembolsa em cima disso. Os R$ 1,18 restantes acontecem de qualquer jeito; eles só não estão no relatório.
E tem um segundo efeito, menos óbvio. Se esse mesmo veículo rodar 15.000 km em vez de 30.000, o custo por km não cai pela metade: ele sobe. Os R$ 5.400,00 de custos fixos e a maior parte da depreciação continuam existindo, agora divididos por metade dos quilômetros. Frota subutilizada não economiza — ela encarece cada quilômetro que roda.
Cinco erros que fazem o número mentir
- Deixar a depreciação de fora. Em veículo novo, costuma ser a maior linha da conta. E é a única que não chega por boleto, o que a torna fácil de esquecer e cara de ignorar.
- Usar quilometragem estimada. Hodômetro no início e no fim do período. Qualquer outra coisa é chute, e chute no divisor contamina o resultado inteiro.
- Misturar veículos diferentes na mesma média. Uma média que junta caminhão, utilitário e carro de passeio não descreve nenhum dos três e não permite decisão sobre nenhum deles.
- Ignorar o custo do veículo parado. Veículo sem uso não tem custo variável, mas continua com custo fixo e depreciação. Se ele não entra na conta, a frota parece mais eficiente do que é.
- Calcular uma vez e nunca mais. Combustível, peça, seguro e valor de revenda mudam. A ANTT revisa os coeficientes dela periodicamente; sua planilha merece pelo menos uma revisão por ano.

Checklist: o que você precisa ter para o número ser confiável
- Hodômetro registrado em toda saída e devolução do veículo
- Abastecimento lançado por placa, com litros, valor pago e km do momento
- Manutenções e trocas de pneu registradas com veículo, data, km e valor
- IPVA, licenciamento e seguro anotados por placa, com data de vencimento
- Valor de aquisição e data de compra de cada veículo
- Valor de mercado atualizado pelo menos uma vez por ano
- Um responsável nomeado e uma data no calendário para refazer a conta
Se quiser só o resultado sem montar planilha, o Cofauto mantém uma calculadora de custo por km gratuita, que já pede os campos na ordem deste guia.
Perguntas frequentes
Qual é a fórmula do custo por km rodado?
Custo por km = (custos variáveis + custos fixos + depreciação do período) ÷ quilômetros rodados no mesmo período. Os três blocos precisam se referir exatamente ao mesmo intervalo de tempo e ao mesmo veículo. Se o período for de 12 meses, a depreciação também tem que ser a de 12 meses, e a quilometragem tem que sair da diferença entre o hodômetro do primeiro e do último dia.
A depreciação entra mesmo no custo por km?
Entra. Ela é dinheiro que a empresa perde em razão do uso e do tempo, mesmo que nunca apareça em um boleto. Deixá-la de fora faz o veículo próprio parecer artificialmente mais barato que a locação, que já embute a depreciação no valor da diária. Para estimar, use valor de compra menos valor de revenda esperado, dividido pelos anos até a troca. Como referência fiscal de ordem de grandeza, o Anexo III da IN RFB nº 1.700/2017 admite taxa anual de 20% para veículos, com prazo de vida útil de 5 anos.
Qual período devo usar no cálculo?
Doze meses fechados é o mais confiável, porque só o ano inteiro captura IPVA, licenciamento, seguro, revisões maiores e a variação de preço de combustível ao longo do ano. Períodos de 3 ou 6 meses servem para acompanhar tendência e para frota nova, mas tendem a subestimar o custo se caírem em um trecho do ano sem despesa anual e sem manutenção pesada.
O custo por km serve para definir o reembolso de quilometragem do funcionário que usa o carro próprio?
Serve como base técnica, e é bem melhor que reembolsar só o combustível: quem usa o próprio carro também paga pneu, manutenção, seguro e depreciação. Mas o valor e as regras do reembolso vêm de política interna, acordo ou convenção coletiva, e têm efeitos trabalhistas e tributários — calcule o número e submeta a política ao contador ou ao jurídico antes de aplicar.
Posso comparar meu custo por km com o piso mínimo de frete da ANTT?
Só com cuidado. Os coeficientes da ANTT valem para o transporte rodoviário remunerado de cargas de carga lotação e variam por tipo de carga, configuração do veículo e número de eixos carregados — não são custo médio de frota urbana nem de veículo leve. O que dá para aproveitar é o método: o piso separa o que varia com a distância do que é fixo por operação e é revisado periodicamente pelo IPCA e pelo preço de referência do diesel S10. Para quem opera nesse regime, a ANTT mantém uma calculadora oficial do piso mínimo.
Onde consulto o preço de combustível para usar no cálculo?
Use o que a sua frota efetivamente pagou, somando os abastecimentos do período. Para checar se está acima da média, a ANP publica semanalmente o levantamento de preços por município e a síntese semanal de comportamento dos preços, ambos gratuitos e com histórico.
Custo por km não é indicador de relatório: é o número que decide manter um veículo, trocá-lo, alugar, recusar um serviço ou mudar uma rota. Ele só presta se vier de dados que a operação registra sozinha, todo dia — hodômetro na saída, abastecimento na placa, manutenção com valor e quilometragem. Com isso em mãos, a conta leva quinze minutos. Sem isso, nenhuma planilha salva.
Fontes
- https://www.gov.br/antt/pt-br/assuntos/noticias-defeso-eleitoral/antt-atualiza-pisos-minimos-de-frete-do-transporte-rodoviario-de-cargas
- https://www.gov.br/antt/pt-br/assuntos/cargas/politica-nacional-de-pisos-minimos-de-frete
- https://calculadorafrete.antt.gov.br/
- https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/precos-e-defesa-da-concorrencia/precos/levantamento-de-precos-de-combustiveis-ultimas-semanas-pesquisadas
- https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/precos-e-defesa-da-concorrencia/precos/sintese-semanal-do-comportamento-dos-precos-dos-combustiveis
- http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/link.action?idAto=81268&visao=anotado
Conteúdo informativo, atualizado em 04/08/2026. Regras de trânsito e valores mudam por estado e por resolução — confirme sempre no órgão oficial antes de decidir.