
Etanol ou gasolina na frota: a conta certa depois do E32
Desde 1º de agosto de 2026 a gasolina comum tem 32% de etanol. Veja por que a regra dos 70% engana na frota e como achar a paridade real de cada veículo.
O biodiesel do B15 puxa água, e água parada no tanque vira borra, filtro entupido e injetor caro. Veja a rotina semanal que protege a sua frota.

O caminhão sai carregado, roda meia hora e perde força na subida. O motorista troca o filtro de combustível no acostamento, anda mais um pouco, e o problema volta. No pátio, a conclusão costuma ser a mesma: venderam diesel batizado. Quase nunca é isso. Na maioria dos casos o problema saiu do seu próprio tanque, e o nome dele é água.
Desde 2010 todo diesel vendido no Brasil já sai da distribuidora com biodiesel misturado. Hoje a mistura obrigatória é de 15% — é o B15. Ela não exige nada de diferente do motor, mas mudou, em silêncio, algo que quase ninguém no pátio tinha o hábito de vigiar: o comportamento do combustível parado dentro do tanque.
Se a sua empresa abastece só em posto, esse cuidado é obrigação do revendedor. Se você tem tanque próprio no pátio — e boa parte das frotas médias tem —, ele é integralmente seu, e não existe fiscal para lembrar. É sobre essa segunda situação que este guia trata, com o roteiro que a própria ANP publica.
B15 quer dizer 15% de biodiesel e 85% de óleo diesel de origem fóssil. Quem estabelece esse número é a Lei nº 13.033/2014, com a redação dada pela Lei nº 14.993/2024, a Lei do Combustível do Futuro. Ela traz uma escada de metas: 15% a partir de 1º/03/2025, subindo um ponto percentual por ano até chegar a 20% em 1º/03/2030.
Só que a meta da lei não é automaticamente o percentual que sai da bomba. O § 1º do mesmo artigo entrega ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) a tarefa de avaliar a viabilidade dessas metas e fixar o percentual obrigatório, dentro de uma faixa de 13% a 25%. E o § 2º acrescenta uma trava: acima de 15% só com viabilidade técnica constatada.
É por isso que a mistura em vigor em agosto de 2026 continua sendo o B15, que passou a valer em 1º de agosto de 2025, mesmo com a meta legal de 16% marcada para março de 2026: o avanço depende de deliberação do CNPE. Vale conferir antes de fechar o orçamento de combustível do ano — quando a mudança sai, vale para o país inteiro de uma vez.

O biodiesel é higroscópico: por natureza química, tende a incorporar água. Quando é misturado ao óleo diesel A, a água que estava dissolvida pode passar para a fase livre — e aparece de três maneiras, segundo a própria ANP: em gotas, como turvação, ou como uma fase aquosa acumulada na parte inferior do tanque.
Água livre no fundo do tanque alimenta três problemas ao mesmo tempo: cria ambiente para bactérias e fungos — a borra escura que aparece grudada no elemento filtrante —, eleva a acidez do produto e favorece a formação de depósitos. O que chega ao veículo, no fim dessa cadeia, é entupimento de filtro, obstrução de injetor e corrosão metálica.
Há um segundo efeito que pega de surpresa quem tem tanque antigo: o biodiesel dissolve resíduos já depositados nas paredes. Sujeira parada por anos se solta, vai para o combustível e do combustível para o filtro do caminhão. Quando três veículos entopem o filtro na mesma semana, logo depois de o tanque do pátio receber uma carga nova, raramente é coincidência.
Desde 31 de julho de 2024 está em vigor a Resolução ANP nº 968/2024, que fixa obrigações de controle de qualidade para todos os agentes econômicos que comercializam óleo diesel no país. Uma delas é a drenagem semanal do fundo dos tanques, com registro à disposição da fiscalização por pelo menos um ano. O posto pode trocar a semanal pela quinzenal, desde que meça o nível de água diariamente.
Repare no verbo: comercializam. Se o seu tanque existe apenas para abastecer a própria frota, a obrigação não recai sobre a sua empresa. A química, porém, não lê resolução: o tanque do seu pátio incorpora água igual ao do posto — e o prejuízo é maior, porque em vez de reclamação de cliente você tem caminhão parado, guincho e entrega atrasada.
A ANP também publica um folheto de manuseio e armazenamento de óleo diesel B com orientações que ela própria classifica como voluntárias — mas construídas junto com distribuidoras, sindicatos, universidades e institutos de tecnologia. É o melhor roteiro público para quem guarda diesel, e é dele que sai a rotina abaixo.

Nenhum desses sinais aparece na inspeção de saída — e é aí que mora o risco. Como o pneu careca, o problema é gradual e só cobra a conta quando o veículo já está longe do pátio.
O percentual é fixado pelo CNPE dentro dos limites da lei, e a Lei nº 13.033/2014 condiciona qualquer mistura acima de 15% à constatação de viabilidade técnica. O que mais causa problema na prática não é a mistura, é a água e a borra que se formam no armazenamento — depende de como o combustível é guardado.
A ANP afirma que o óleo diesel B pode ser estocado por longo período desde que atendidas as boas práticas de manuseio e armazenamento; sem elas, pode se deteriorar e formar material insolúvel. Não existe prazo de validade único: o que decide é o cuidado com água, luz, temperatura e giro.
A obrigação da Resolução ANP nº 968/2024 alcança os agentes econômicos que comercializam óleo diesel — tanque usado só para abastecer a própria frota não se enquadra. Mas a drenagem semanal também aparece como recomendação técnica no material de manuseio e armazenamento da ANP, e o motivo é o mesmo nos dois casos.
Às vezes. A água livre aparece como gotas, turvação ou uma camada no fundo do tanque. Já a água dissolvida no combustível não aparece — e é ela que vira água livre depois. Por isso a medição com régua e a drenagem periódica valem mais do que olhar o que sai pelo bico.
Biocida ataca o sintoma, que é o micro-organismo, e não a causa, que é a água. Sem eliminar a água, a contaminação volta. A ordem correta é drenagem, controle de nível e giro de estoque primeiro; aditivo entra como complemento, com orientação técnica.
A rotina de cuidados é a mesma. O que muda é a margem para descuido: quanto maior a fração de biodiesel, mais peso ganham os cuidados de armazenamento descritos pela ANP. Quem já drena, mede e gira o estoque não precisa mudar nada no dia em que o percentual subir.
Nada aqui exige investimento. Exige que alguém tenha a tarefa no nome, uma vez por semana, e que o resultado fique registrado fora da memória do encarregado. Filtro entupido é barato; a carreta parada na estrada às seis da tarde de sexta não é.
Conteúdo informativo, atualizado em 21/08/2026. Regras de trânsito e valores mudam por estado e por resolução — confirme sempre no órgão oficial antes de decidir.